UM GALGO É UM AMIGO, NÃO UMA FERRAMENTA DE TRABALHO

Quem tenha um galgo como animal de estimação sabe de que falo; e se, ademais, esse galgo é um galgo reformado, ex-caçador ou ex-atleta, sabe ainda melhor o tesouro que tem na sua vida. (Podem encontrar muitas histórias com final feliz no livro “Tengo un ángel en casa”).

Um galgo é um amigo

Capa do livro “Tengo un ángel en casa”

Infelizmente, os que tivemos a sorte de sermos adoptados por um galgo reformado também conhecemos bem a lista de comentários galgueros que, como música ambiental, detonamos no ar quando saímos à rua com o nosso amigo magrinho: “olha um galgo, estes são bons para caçar coelhos”; “um galgo, sabes como correm esses…”; “um galgo na cidade como animal de estimação?, mas esses não são para caçar?” (Esta pergunta cobra mais intensidade ainda quando o galgo anda vestido, para se proteger do frio… Há zonas de Espanha onde passear com um galgo, mesmo nu, é visto com o mesmo olhar de estranheza que tem quem vê passear um porco); “ora um galgo, já o levou para as corridas?”; e a lista continua…

E claro, para quem como eu é anti-exploração do galgo (e dos animais em geral), esta série de comentários produz sensações internas de frustração, as vezes, de querer fugir, outras vezes, e sensações mais fortes que não se podem escrever num post…

Mas há uma sensação que é comum em todas as ocasiões que somos confrontados com alguém que acha que um galgo é apenas uma máquina de correr e para correr, incapaz de fazer outra coisa bem: refiro-me à certeza de que é preciso informar à sociedade das qualidades do galgo como animal de estimação, informar do pecado que representa explorar qualquer deles para benefício único dum dono sem escrúpulos… É necessário consciencializar à sociedade de que deve acordar, abrir os olhos e começar a ver o quanto sofrem os galgos no mundo, em geral, e na península ibérica em particular.

Em Espanha, para dar um dado confirmado, 50.000 galgos são abandonados ou abatidos CADA ANO, após serem explorados por pessoas incapazes de sentir empatia por um animal nem respeito pelo próximo, qualquer próximo: porque um galgo, sim senhor, também é o nosso próximo…

Quando cheguei a Portugal, achei que estava numa terra diferente e que aqui os galgos não sofriam, pelo menos não se falava nisso na Serra de Estrela, onde andei vários anos. É claro que todos os comentários eram do género que expus mais acima; apenas uma vez vi um galgo magro de mais (e assim que foi possível, com a ajuda de muitas pessoas, mandamo-la para Barcelona).

No entanto, assim que a Tula e eu chegamos ao Porto, entramos numa espécie de “casting” involuntário e quase permanente em que, àqueles tópicos passaram a ser apenas uma música para fazer com que um bebé adormeça. As perguntas foram ficando mais críticas: “ora um galgo, já o levou para as corridas?” passou rapidamente a ser “um galgo, não quer levá-lo para as corridas?”

Podem imaginar a minha expressão quando rejeito esse tipo de propostas; sou educada, mas imediatamente marco a minha posição proteccionista e contra a exploração… No entanto, os “caça-talentos-galgueros” chegam a ser insistentes na sua procura de que eu me converta e aceite levar à Tula para as corridas e a coisa fica pior quando tentam explicar “os cuidados” que dão aos galgos deles…

Para quem não conheça o problema desde dentro, até es possível que essas explicações tenham sentido. Mas cuidado! A partida nunca se deveria confiar numa pessoa que pratique um desporto baseado na exploração dum animal, como acontece com os galgos…

Para ilustrar o que quero dizer, tentarei reproduzir sinteticamente a conversa (da qual tentei fugir sem o conseguir) com um galguero na caminhada para cães que se fez em Vila Nova de Gaia o domingo passado, 23 de Março…

Galguero: “Um galgo, leva-o para as corridas?”

Eu: “não, nem pensar, esta menina já foi caçadora, abandonada e agora vive uma vida feliz e sem trabalhar; já sofreu muito, muito maltrato”

(Quando Tula foi resgatada em Madrid pesava menos 10 kg do que agora, para dar uma ideia…)

Galguero: “ah, eu tenho galgos para as corridas, mas comem muito bem, dou carne todos os dias, e levo-os treinar de manhã e a tarde uma hora cada vez. E os nossos galgos correm só detrás da lebre mecânica”

(Eu pensei: eu dou comida de qualidade à Tula e ela “passeia” mínimo dois horas por dia, não para ser logo mais efectiva numa competição, mas porque tem direito de viver com qualidade a sua reforma… E relativamente a correr detrás dum coelho verdadeiro ou correr detrás de um objecto mecânico, qual a diferencia se nunca vai ficar com a recompensa???)

Eu: “Olhe, é difícil imaginar um galguero que cuide responsavelmente dos seus galgos, eu conheço bem o que se passava no Canódromo de Barcelona, por exemplo, e sei como os cães viviam escravos em gaiolas de 1 m2, eram drogados, enchidos a hormonas, apenas saiam da gaiola para correr 40 segundos na pista… Sei bem o tipo de alimentação que davam, quase liquida, para que as fezes dos cães forssem logo mais fáceis de limpar, com mangueiras de 4 polegadas com agua fria a pressão, com o galgo dentro da gaiola… E sei bem isto porque a minha greyhound Lily, que correu vários anos nesse canódromo, tinha a boca destroçada por esse tipo de alimentação, assim como traumas que nunca conseguiu ultrapassar… E, mesmo que o Senhor me diga que cuida bem dos seus cães, o que pode acontecer em casos pontuais, o que fazem, por exemplo, quando os galgos já não podem correr mais???”

(Eu já sabia a resposta, mas queria ouvi-la do próprio galguero, e queria que ele a ouvisse também…)

Galguero: “Ah, nós nunca matamos um galgo!

(Fui guiando a pergunta, até conseguir que exponha os detalhes da resposta)

Galguero: “Se é uma cadela, continuamos a tê-la e usamo-la para criar… Se for um cão, levamo-lo às quintas, mas nunca os matamos… São cães que custam 5.000€, não os podemos matar!”

Eu: ” Está a ver o que lhe digo? O senhor apenas não mata o cão porque custa 5.000€, mas essa não devia ser a resposta, porque esse cão, durante os anos que o explorou, deu tudo de si para que o senhor obtenha benefício económico e troféus, e por isso merece uma reforma digna; não apenas por ter ganho muitas competições para o senhor, mas porque é um ser vivo que merece dignidade; e o único que fazem os galgueros logo que um galgo não serve mais para correr é ver de que maneira podem continuar a explorá-lo… Com isso já me disse tudo…”

A conversa continuou comigo a andar e a tentar fugir do que, caso contrário, seria inevitável: dizer ao galguero que o que fazia não tinha justificação possível, e que nunca concordaríamos no assunto dos galgos, porque ele os via como ferramentas de trabalho e eu como amigos da minha alma, parte integrante da minha família e não apenas como um animal de estimação, o que já podia ser suficiente…

Mais uma vez, fiquei com uma sensação de desconforto na alma, por saber que perto do Porto há galgos a sofrer abusos e exploração, sem que ninguém regule e controle o que se passa com esses cães…

Essa sensação ganhou forma e matéria o dia seguinte, quando uma das veterinárias da Tula no Porto contou-nos que tinham estado dias a tentar salvar da morte um galgo ex-atleta que chegara à Clinica muito doente do coração… Lutaram junto dele, mas foi impossível salvá-lo… Douro morreu, deixando a vaga de “cuidador de uma garagem” livre… Um ex-atleta e grande campeão, com mérito espiritual suficiente (pelo facto de ser um cão) para viver a sua reforma deitado num sofá, do explorador ou de uma família de adopção… Mas nunca como empregado numa garagem, quando quem conhece os galgos sabe muito bem que um cão desta raça não é um cão de guarda, mas uma “patata de sofá” que precisa contacto humano, calor de família e um ambiente em que todos os medos possam desaparecer ou pelo menos ser minimizados… Algo que nunca aconteceu, segundo parece, ao Douro, que morreu com os mesmos medos que lhe produzia o trabalho de ser um atleta para um dono que não foi capaz de o compensar como era devido nos seus anos de reforma…

Vai este extenso post como homenagem a este menino que já é um anjo no Céu e que, felizmente, já não terá de guardar uma garagem fria e solitária no Porto…

P:S: Dias após publicar este post, conheci a historia da Didi, uma galga que ilustra bem o que quis explicar aqui… Podem ver mais fotos da Didi na página de Facebook SOS Galgos (oficial).

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