LADRÕES DE CORAÇÕES I

Cada ano são abandonados dezenas de milhares de cães em Portugal e em Espanha. Seria fácil atribuir a culpa deste problema à crise económica que o mundo sofre. Se pensas assim, então olha para as ruas da tua cidade e vais encontrar quantidades obscenas de pessoas sem casa, sem emprego, sem recursos… sem mais companhia que a do seu cão (ou cães)… Pessoas partilhando com o seu cão o único bocado de comida, a única manta para se proteger do frio… Então, ainda pensas que o abandono animal é culpa da crise económica?

O abandono animal é uma planta cuja raiz assenta nos princípios humanos, não na falta de dinheiro ou de trabalho.

Vou colocar-te uma questão muito simples: se não tivesses dinheiro, abandonavas um filho na rua? De certeza que a tua resposta é um “Não” bem grande… Mas então, porque um cão “Sim”???

Ai chegamos ao coração do assunto: não todas as pessoas consideram os seus cães como sendo parte da sua família… De facto, nem todas as pessoas consideram que os seus “animais de estimação” sejam filhos do mesmo Deus. Isso faz com que o nível de compromisso adquirido com eles seja mais reduzido, até nulo no pior dos casos (que, infelizmente, são muitos)…

Mas vou contar-te uma coisa: o teu cão forma parte da tua família, é mais um integrante do teu núcleo familiar… E foi criado pelo mesmo Deus que te fez nascer. Portanto, uma vez que entrou na tua vida e na tua casa, assumiste com ele e contigo (mesmo que não o saibas ou não queiras saber) um compromisso do género “nos bons e maus momentos, na saúde e na doença…”.

Sim, tu tens com o teu cão um compromisso “até que a morte vos separe”.

O Clube da Tula

Samoa, a pitbull mais famosa de Portugal, adoptada por Paula e Rubén para toda a vida. Foto: Búnker Studio.

O facto de haver números tão elevados de abandonos demonstra que muitas pessoas vivem na ignorância do que a palavra “compromisso” implica. Demonstra que, mesmo criando muitos refúgios e associações de resgate, o abandono continuará existindo e multiplicando-se, porque o foco desse problema é a falta de princípios, de educação social, de humanidade e… de compromisso.

Como se o problema do abandono não fosse suficiente, surge mais um que, associado ao primeiro, agrava exponencialmente a situação: a compra de animais (de raça; é claro… ninguém iria comprar um cão rafeiro).

Tantas vezes penso: “Se cada pessoa que decide gastar centenas de euros na compra de um cão doasse todo esse dinheiro a um refúgio de animais e adoptasse ai um cão abandonado, quanto melhoraria a situação desses espaços que, mesmo ficando na tua cidade, parecem estar no fim do mundo (sim, é mais fácil pensar que os refúgios não existem ou que ficam longe, mas isso é bem diferente da realidade), sem subsídio nenhum.” (1)

Alguma vez pensaste que comprando um cão que nasceu especialmente para ser vendido impedes que um outro cão que já nasceu (e que deambula pelas ruas da tua cidade ou que espera há anos no espaço frio e estresante de um canil) tenha uma segunda possibilidade? (2)

O Clube da Tula

Foto: SOS Galgos (Barcelona)

Se este confronto entre abandono animal e compra te parece duro, espera que te falarei de outro. Outrora, a situação era a seguinte: quem queria um cão rafeiro, ia procurá-lo a um refúgio; quem queria um cão de raça comprava-o a um criador… Outrora, o “pedigree” parecia garantir ao animal comprado que, mesmo que o seu comprador tivesse um nível baixo de compromisso, nunca iria ser abandonado por este, que pagara “muito dinheiro” por ele…

Mas há anos, muitos anos, que os documentos dum cão de raça já nada significam. Isto pode-se verificar pela quantidade de cães de raça que enchem as gaiolas dos refúgios. E verifica-se ainda mais pelo alto número de associações de resgate especializadas em raças especificas: SOS Galgos, SOS Setter, SOS Dálmata, SOS Frenchie, SOS Labradores… e a lista continua… Sim, ser de raça já não garante a cão nenhum a estabilidade junto de uma família.O Clube da Tula

Penny, uma meiga galga espanhola recentemente resgatada por SOS Galgos (Barcelona)

As modas, que tudo abrangem, chegaram até ao mundo canino. E os irresponsáveis – aqueles que se deixam levar apenas pelo aspecto visual de um cão, quer seja de raça, quer seja rafeiro, sem conhecer as suas características, as suas necessidades físicas, a percentagem de compatibilidade que mais tarde o animal terá com o ambiente em que será inserido, com as rotinas dos seus donos, etc. – são um grupo potencialmente perigoso: Perigoso porque os seus integrantes têm todas as fichas para ser, algum dia inesperado, “donos abandonadores”. (3)

Há dias encontrei um poster em Facebook que dizia: “Não compres um cão de raça; Adopta um cão sem casa.” Achei aquele poster desfasado no tempo porque, infelizmente, há actualmente tantos cães de raça sem casa…

Portanto, temos a seguinte situação: milhares de cães sem família, sem casa; muitos deles, rafeiros, muitos outros, de raça. E, por outro lado, temos a situação inversa: cria, muitas vezes indiscriminada, de cães de raça (muitas vezes, em condições inaceitáveis e repudiáveis: senão vai ver o que se passa em Europa de Leste, ou muito mais perto…).

Então, o que fazes? Preferes comprar ou adoptar?

Qualquer que tenha sido a tua resposta, em breve vou fazer-te uma proposta muito interessante… Fica atento!

O Clube da Tula

(1) Quero esclarecer que há muitas pessoas, com um grande coração, que decidiram comprar um cão após vários intentos sem sucesso de adoptar um cão. Algumas vezes, impõem-se aos potencias adoptantes uns requisitos tão excessivos, com a intenção de proteger os cães que resgataram, que estes acabam por não ser adoptados por causa destas burocracias. Este é um tema para reflectir, mas não neste post…

(2) Em muitos casos, ademais, comprando um cão estás a favorecer o crescimento de uma “indústria”, ilegal e fora de controlo, que nem deveria existir NO MUNDO.

(3) Outro esclarecimento: não todos os compradores de cães são “donos abandonadores” e não todos os adoptantes de cães são donos exemplares…

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