A história do Jack, Ex-Nemo

A semana passada publicamos as palavras que a Paula Ribeiro, de Bunker Studio, dedicava (em nome dela e do Ruben Diogo) à Samoa, a bela princesa de quatro patas com quem partilham a vida e que permitem que seja uma dos “4 Fantásticos” de O Clube da Tula. O post sobre a Samoa impactou na Sara Lajas, da associação portuguesa de protecção animal UPPA, quem imediatamente começou escrever a história do Jack. O dia a seguir de publicar o post da Samoa, o nosso email brilhava com as palavras da Sara e as fotografias do Jack, que mereciam um post próprio…

O Clube da Tula

Esperamos que muitas histórias como estas comecem a ver a luz, para convidar a mais pessoas a visitar os refúgios onde tantos animais esperam pela sua oportunidade… Esperamos que estas histórias façam acordar a todos aqueles seres humanos que, adormecidos e indolentes, não são ainda capazes de se sensibilizar com um cão de rua a passar fome, frio e solidão.

O Clube da Tula

Queremos que percebas que um cão de refúgio ou de rua pode ser tão o teu amigo como um cão comprado, que te pode dar a mesma felicidade, companhia e satisfação. Os cães de refúgio ou de rua não têm tantas hipóteses como os comprados, é como se tivessem nascido com menos direitos, apesar de serem filhos do mesmo Deus. E não foi Deus quem lhes retirou os direitos, foi o Homem… Portanto, cabe-nos a nós reparar essa falta cometida pelo nosso próximo: primeiro educando à sociedade, criando consciência nela:

Adopta, não compres… Mas também esteriliza!!!

Só assim evitarás a multiplicação de ninhadas não desejadas condenadas a morrer… Logo agindo, porque de nada serve partilhar as imagens de cães abandonados que vemos nas redes sociais se logo não fazemos mais nada.

Tentaremos, desde esta humilde plataforma que é o Blogue de O Clube da Tula, partilhar tantas histórias como seja possível, até convencer-te de que o caminho da adopção responsável é o futuro e que não podemos virar costas a esta realidade.

Bem, vai aqui a História do Jack. Era uma vez um rapaz chamado Nemo… Ouve com o teu coração as palavras da Sara Lajas, por favor:

Sempre tive cães, desde que me lembro de mim… Em casa do meu pai chegaram a ser quatro! Quando comecei a viver com o meu companheiro, Daniel, falámos algumas vezes sobre isso, mas o assunto acabava sempre por morrer. A única coisa que sabíamos é que se alguma vez tivéssemos um cão, ele seria adoptado numa associação ou canil e, se houvesse possibilidade, ia chamar-se Jack…

Estávamos em Novembro de 2012. Faltava um mês para fazer um ano de vida em conjunto, quando (por eu seguir diversas páginas de associações no Facebook) vi a foto de um cão lindo, com uma história que me deu um nó na garganta. Ele tinha tido família. Tinha sido adoptado em bebé na associação UPPA. Fazia parte da ninhada “delícias do mar” e, na altura, chamava-se Nemo: o meu filme de animação preferido… Um ano depois dessa adopção, o Nemo foi devolvido: a justificação era “a emigração”…

O Clube da Tula-Jack

Primeira foto do Jack, a foto que mexeu no coração da Sara e do Daniel…

Fiquei estarrecida a olhar para ele e mostrei ao meu companheiro. Os dois ficámos completamente apaixonados pelo Nemo, mas decidimos pensar um pouco melhor. No dia seguinte, uma nova foto do Nemo voltou a aparecer no Facebook. Desta vez, a história tinha ainda mais uma informação: “Cão habituado a apartamento, muito meigo, carinhoso e carente”. Este foi o ponto de viragem e decidimos ir vê-lo.

O Clube da Tula-Jack

Segunda foto do Jack, a foto que roubou o coração da Sara e do Daniel…

No dia seguinte, enviei um e-mail para a UPPA e responderam assim que puderam com o formulário de potencial adoptante. Tudo tratado, tínhamos a nossa visita marcada para um sábado. Contámos os dias e quando lá chegámos, ainda no antigo albergue, conversámos bastante com a Sandra Vicente, um dos elementos da direcção da UPPA. Enquanto passava pelas boxes, o Daniel já tinha visto o Nemo, ao fundo do corredor. Chegamos perto da box e eu vi o Daniel como nunca o tinha visto, os olhos brilhantes e as mãos pela grade a mimarem aquele cãozinho que só queria mimo. Olhou para mim e disse: “Tens a noção que se ele vier connosco nunca mais volta para aqui, não tens?” Foi assim que soubemos que íamos ter um novo elemento na família.

O Clube da Tula-Jack

Em casa, o Jack provou ser um menino exemplar. Só nos primeiros dois dias é que fez xixis dentro de casa, logo íamos passear e ele fazia tudo lá fora, pedia mimos dentro de casa, ficava sempre perto de nós e era uma alegria para nós mimá-lo.

O Clube da Tula-Jack

Passadas três semanas da adopção do Jack, eu fiquei desempregada e em nenhum momento nos arrependemos da nossa decisão. Felizmente, mês e meio depois arranjei trabalho, mas quem não ficou nada feliz foi o nosso patudo. Habituado à dona em casa com ele, quando chegávamos tinha feito asneiras, abrir gavetas espalhar panos da loiça, sacos de plástico… Aprendemos a lidar com ele, a pouco e pouco até esses comportamentos desaparecerem. Aconselhámo-nos com veterinários, pesquisamos e com treino de reforço positivo ele já estava a melhorar.

Percebemos que era um cão ansioso e extremamente dependente de nós de modo sufocante. Numa fase mais complicada para ele, que nunca chegámos a entender e em que ele não era o mesmo cão, ansioso, agressivo, decidimos recorrer a uma parceria da UPPA e fazer Reiki. Foram 4 sessões maravilhosas e a partir daí não só ele acalmou, como nós soubemos lidar melhor com ele.

Hoje estamos numa vivenda. Percebemos que o mimamos demais e, por isso, às vezes ele não tem comportamentos assim tão bons. É uma aprendizagem constante, mas em nenhum momento queremos abdicar dele!

“Uma casa não é um lar sem um cão!” é o nosso lema. O Jack é lindo e nós somos loucos por ele. Estamos a pensar arranjar-lhe uma companhia e certamente que vamos de novo à UPPA, só não sabemos quando.

Adoptar um cão já adulto (ele tinha um aninho no momento da adopção e já tem três agora) é maravilhoso. As pessoas podem não acreditar, mas todos os dias, ao olharmos para ele, vemos o quão agradecido ele está por nos ter na vida dele. É expressivo MESMO, tanto de alegria como tristeza. Ele é feliz connosco e nós somos mais felizes por termos o Jack nas nossas vidas.

O Clube da Tula-Jack

P.S.: Por causa da adopção do Jack fiquei de tal maneira ligada à associação que me tornei voluntária, sócia e madrinha! :) E a minha maior alegria nestes dois anos de voluntariado. Depois da adopção do Jack, foi a adopção da minha afilhada Sara, na semana passada. Fiquei tão feliz como se ela tivesse vindo comigo. É um sentimento tão bom, que acho que só sente quem conhece uma associação como a UPPA :)

Sara Lajas

A história de amor do Jack, a Sara e o Daniel ajuda-nos para reflectir sobre vários assuntos.

A Sara diz: “Um ano depois dessa [primeira] adopção, o Nemo foi devolvido: a justificação era ‘a emigração’…”. Eu bem sei que posso receber muitas criticas pelo que vou dizer, e peço desculpas se alguém se sente ofendido com a minha opinião. Mas esta explicação aparece diariamente em muitos casos publicados nas redes sociais, de cães cujos donos vão abate-los (como se sofressem de uma doença terminal e contagiosa) se não se arranja uma casa para esses animais…

E eu pergunto-me: Acaso se um filho (humano, vale esclarecer, porque para mim a Tula é também uma filha) não puder viajar, também essas pessoas iam mandar abatê-lo? Porquê é tão fácil pensar em eliminar um animal que, queiramos ou não, faz parte da nossa família? Porquê há tantas pessoas que pensam que o seu animal de estimação é apenas um acessório que podem pôr o retirar da vida da mesma maneira que pomos os óculos de sol se há sol ou os tiramos se chove? Adoptar um cão (ou um gato) significa incorporá-lo na nossa vida da maneira contundente que disse o Daniel, companheiro da Sara aquando a visita ao refúgio de UPPA: “Tens a noção que se ele vier connosco nunca mais volta para aqui, não tens?”

Que bonito e que mundo perfeito poderíamos começar a construir se cada pessoa que adopta um animal tivesse essa mesma responsabilidade… Porque adoptar não é tudo, o desafio chega logo, quando as circunstancias da vida ficam difíceis e temos de nos desenrascar para sobreviver… Estarás disposto, se esse momento chegar, a manter contigo o teu cão não importa o que aconteça? Se achas que Não, ou mesmo se duvidas antes de dizer que Sim, o melhor será que não adoptes (e, claro está, que também não compres) um cão ao qual não lhe podes garantir a mesma lealdade que ele tem para te dar…

Outra reflexão que surge das palavras da Sara tem a ver com o processo de adaptação à família que passa o menino ou menina adoptados. A própria Sara comenta uma coisa muito habitual de acontecer… Levas o cão para a tua casa e, passado algum tempo, verificas que começam a produzir-se algumas mudanças comportamentais que não estavam previstas. Estarás disposto a procurar todas as soluções possíveis para resolver esse problema? Ou simplesmente procurarás um outro lar para o teu cão alegando “que precisa espaço”, “que não consegues lidar mais com ele”, “que a tua casa está estragada”…? A Sara e o Daniel foram muito responsáveis com o Jack, sabiam que chegara para ficar e, portanto, “devolver” o Jack não era uma opção… Agirias da mesma maneira? Se achas que Não, ou mesmo se duvidas antes de dizer que Sim, o melhor será que não adoptes (e, claro está, que também não compres) um cão ao qual não lhe podes garantir a mesma lealdade que ele tem para te dar…

Mais uma reflexão importante que as palavras da Sara nos permitem realizar: temos suficiente capacidade autocrítica para aceitar que muitas vezes os problemas dos nossos animais de estimação são provocados por nós? A Sara diz: “Percebemos que o mimamos demais e, por isso, às vezes ele não tem comportamentos assim tão bons. É uma aprendizagem constante…” E digo-te: Sim, com os nossos cães (ou gatos) sempre estamos a aprender, é como com as crianças! E nunca podemos pensar que já está tudo feito, porque então podemos ver todos os progressos a cair em pouco tempo. Aconteceu-me com a Tula… Uma semana após estarmos juntas, sem ela sofrer nem um suspiro de ansiedade por separação, comecei dar festinhas a mais e deixei de seguir rigorosamente as pautas que se devem seguir com os galgos adoptados. Fi-lo com a ignorância das consequências que isso podia ter na nossa vida… O resultado??? Um brote de ansiedade por separação que conseguimos controlar porque eu intui que era eu quem estava a provocar esse comportamento e a corrigi-lo e pedir desculpas à Tula pela minha asneira… Estás disposto a ser auto-critico, a aceitar que te enganaste em alguma pauta e a fazer os possíveis para corrigir os “erros” do teu animal de estimação que tu mesmo geraste nele? Se achas que Não, ou mesmo se duvidas antes de dizer que Sim, o melhor será que não adoptes (e, claro está, que também não compres) um cão ao qual não lhe podes garantir a mesma lealdade que ele tem para te dar…

E, para concluir este post, chamo a atenção para uma palavra que se calhar leste rapidamente e não te apercebeste que ai estava no texto da Sara… “Reiki”… Quando o momento chegar, se precisas ajuda profissional de algum tipo, não te feches ao convencional, mantém a tua mente aberta como o fizeram a Sara, O Daniel e o Jack… Limitar-te apenas àquilo que conheces ou que achas conhecer pode ser a diferencia entre dar qualidade de vida ao teu animal de estimação e à tua família, ou um desfecho triste e não desejado.

O Clube da Tula

O Clube da Tula agradece à Sara e ao Daniel por se terem deixado adoptar pelo Jack, por amá-lo desde o coração mas também desde a responsabilidade… E obrigado por terem aceitado partilhar a vossa história connosco.

O Clube da Tula

Queres contar-nos a tua história?

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4 thoughts on “A história do Jack, Ex-Nemo

  1. Olha olha um menino nosso tão feliz é muito gratificante ver e rever estas histórias e imagens e saber que nem todos os donos são maus, saber que afinal estamos certos, grande parte do tempo, quando dizemos SIM a algumas famílias, SIM podem levar este menino para casa e amá-lo para sempre! Obrigada pela partilha e pela análise da história do Jack, que é muito, muito importante ter em conta! Vamos partilhar. Pode ser que surjam mais histórias de mais uppalianos felizes

    1. Obrigado pelo vosso belo e sacrificado trabalho, UPPA… Esperamos que muitos meninos como o Jack possam ser felizes com a vossa ajuda!!!

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